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O USO DOS ESPAÇOS NA ESCOLA


O espaço físico exerce um papel muito importante nas estratégias de ensino e de aprendizagem. Como nas outras variáveis, a estrutura física das escolas, os espaços de que dispõem e como são utilizados, correspondem a uma ideia muito clara do que deve ser o ensino. Logicamente, posto que os aspectos físicos são os que mais perduram no tempo, não são tanto uma consequência do que tem de ser ou é hoje em dia o ensino, mas o papel que se atribui a ele num momento determinado.

Se a utilização do espaço tem sido o resultado de uma maneira de entender o ensino, tanto em relação à função social como à compreensão dos processos de aprendizagem, certamente uma mudança nesses elementos levaria a uma reconsideração das características que estar de acordo com outras concepções de ensino.

A todos nós parece lógica a distribuição atual das escolas. Consideramos que uma escola tem que ser um conjunto de unidades especiais, as classes, situadas junto à outra e unidas mediante corredores. Este conjunto pode variar desde uma ou duas classes até escolas que têm dezenas de salas. Também o interior dessas unidades espaciais apresenta uma distribuição bastante similar: um conjunto de cadeiras e mesas colocadas de duas em duas ou individualmente e alinhadas de frente para a lousa e para a mesa do professor ou professora.

A pergunta que devemos fazer é se realmente esta é a fórmula mais adequada, a melhor, a única. E, sobretudo, temos de nos perguntar que critérios nos permitem justifica-la.

Se iniciarmos de novo uma revisão histórica, veremos que esta configuração não é gratuita. Nossa tradição é herdada de um ensino centrado nos conteúdos factuais e conceituais, que tem girado em torno de modelos de comportamento inspirados em fórmulas disciplinares rígidas e uniformizadoras. Esse tipo de ensino baseado em estratégias de reprodução comportava o uso de exposições gerais para todo um grupo de alunos que, em função das finalidades da educação, podia ser bastante numeroso, colocado de forma que os alunos pudessem receber facilmente as exposições e instruções de ensino. Ao mesmo tempo, esta disposição contribuía para manter a ordem. Tratava-se de uma disposição espacial criada em função do protagonista da educação, o professorado, em que meninos e meninas, como se estivessem num cinema ou num teatro, se situavam de forma que podiam ver e escutar o que representava a fonte básica do saber.

Uma concepção transmissora e uniformizadora do ensino, que comportava determinadas formas bem definidas e bastante eficazes se levarmos em conta o que se pretendia. Entretanto, se nos perguntam qual é o número máximo de alunos que pode haver numa classe onde se tenham que explicar, por exemplo, os nomes dos rios da Europa, os códigos da Língua, Matemática, Física ou Química, as obras mais importantes do Romantismo, entre outros assuntos do tipo, certamente responderemos que é limitado ao número em que consiga manter a ordem. E também diremos que a melhor maneira se situar esses alunos será a que lhes permita ver e escutar melhor o professor.

Dessa forma, o espaço físico mais adequado será o que permitir acomodar o número máximo de alunos que se estabeleceu e a distribuição da aula mais apropriada será a que possa favorecer o controle dos professores. Para garantir que essa função de transmissão e controle seja mais eficaz só será necessário situar o professor num nível superior ao dos alunos mediante um tablado.

As razões de ordem, controle e eficácia, segundo uma concepção do ensino e da aprendizagem, determinam os usos do espaço e, portanto, as características físicas da maioria das escolas.

A utilização do espaço começa a ser um tema problemático quando o protagonismo do ensino se desloca do professor para o ALUNO. O centro de atenção já não é o que há na lousa, mas o que está acontecendo no campo dos alunos. Este simples deslocamento põe em dúvida muitas das formas habituais de se relacionar com a classe, mas questiona consideravelmente o cenário. O que interessa não é o que mostra o quadro, mas o que acontece no terreno das cadeiras e, mais concretamente, em cada uma das cadeiras.

Este deslocamento faz com que muitos dos elementos que configuram o meio físico do aluno adquiram uma grande importância. A necessidade de que o aluno vivia num ambiente favorável para seu crescimento também inclui, e de maneira preferencial, o ambiente em que deve se desenvolver. O estado de ânimo, o interesse e a motivação receberão a influência do meio físico da escola. Criar um clima e um ambiente de convivência estáticos, que favoreçam as aprendizagens, se converte numa necessidade da aprendizagem e, ao mesmo tempo, num objetivo de ensino. Ao mesmo tempo, as características dos conteúdos a serem trabalhados determinarão as necessidades espaciais.

A necessidade de elaboração pessoal do conhecimento acarreta, sobretudo para os alunos mais jovens, a necessidade de favorecer a atividade mental do aluno através de ações que não se limitem a escutar as exposições do professor ou da professora. A observação, o diálogo ou o debate, a manipulação e a experimentação são atividades imprescindíveis para favorecer os processos construtivos dos alunos, e para realizar estas atividades é preciso dispor de espaços que as facilitem.

Neste momento nos vemos obrigados a reconsiderar a adaptação da distribuição convencional do espaço. Em atividades com estas características, o centro de atenção já não pode ser somente o que diz o professor, mas tem de se deslocar para o que os alunos fazem e, portanto, para as necessidades que estas tarefas comportam. Se as atividades selecionadas são debates, diálogos ou discussões em grupos reduzidos bastará que a disposição da classe possa variar conforme as características da tarefa: distribuição em círculo ou semicírculo, por pequenos grupos ou por duplas. Por outro lado, se as atividades a serem realizadas se concretizam na manipulação, na experimentação, na observação ou na pesquisa bibliográfica, será necessário que a configuração da classe permita estas tarefas ou será imprescindível contar com outros espaços adequados fora da aula.

Quando nossa atenção se concentra no ensino de conteúdos procedimentais, a necessidade de revisar o tratamento do espaço se multiplica, já que, como vimos, é necessária uma atenção às diferenças no tipo de ajuda e em relação à realização das diferentes atividades, estabelecendo desafios e apoios adequados às características diferenciais de aluno. Isto implica a organização de agrupamentos de diferente natureza e, portanto, de se dispor de espaços que possibilitem o trabalho de cada um dos diferentes grupos. Pode se tratar de espaços fixos em classe, onde se encontrem os elementos e materiais que permitam realizar o trabalho correspondente (“cantos” e pequenas oficinas, bibliotecas da classe...), ou outros espaços adequados fora da aula e concebidos para realizar trabalhos deste tipo (auditórios, laboratório, biblioteca, horta escolar...).

Conforme as etapas ou níveis, será necessário avaliar a possibilidade de que haja aulas de grupo/classe que convivam com aulas especializadas. Por outro lado, é preciso levar em conta as possibilidades de ampliar o espaço físico da escola, introduzindo como concepção espacial geral a utilização dos serviços que a comunidade oferece: biblioteca pública, serviços municipais, associações, museus, etc.

Quanto aos conteúdos atitudinais, excetuando-se o papel da assembleia e das necessidades de espaço desta atividade, sua relação com a variável espaço está associada à série de manifestações que indiretamente constituem a maneira de entender os valores por parte da escola sobre determinados campos. Nos referimos, por exemplo, aos espaços que são de todos ou os que estão destinados a coletivos determinados, e dentro deste último grupo aos que são de uso exclusivo dos professores, às diferenças de mobiliário dos setores e das salas dos professores e de alunos; às características físicas e aos objetos diferenciados nos refeitórios ou nos banheiros; às diferenças relacionadas ao gênero nos banheiros e vestiários e ao uso do pátio.

Tratam-se de manifestações do sentido que têm para a escola as relações de hierarquia e poder e as funções e papéis que se atribuem às pessoas, conforme o status social ou de gênero. São manifestações aparentemente sem importância, mas que formam de modo decisivo valores e atitudes determinadas.

É conveniente dedicar especial atenção às dimensões das escolas. As necessidades de uma escola seletiva e uniformizadora não têm nada que ver com as de outra cujo objetivo seja a formação integral das pessoas. Os prédios grandes, com centenas de alunos e dezenas de professores, são radicalmente contrários a propostas educativas encaminhadas para o desenvolvimento não apenas cognitivo dos alunos. É impossível promover determinadas atitudes ou estabelecer um bom clima afetivo se estes não podem se sentir membros, com personalidade própria, de uma comunidade, onde todos se conhecem, professores e alunos, com nomes e sobrenomes. Dificilmente podem se sentir seguros no anonimato que envolve conviver com centenas de desconhecidos.

Nessa perspectiva se torna muito difícil manter marcos coerentes de maneiras de viver, conforme os valores e as atitudes que se pretende promover, numa perspectiva personalizada e global. Dado que as construções já estão feitas, e evidentemente segundo outros modelos educativos, em muitos casos será necessário criar divisões e espaços que rompam com a grandiosidade dos prédios e viabilizem, ao máximo, formas de relações personalizadas. E, logicamente, será necessário ampliar este requisito às dimensões das equipes docentes.

Será conveniente que ao estruturar e organizar as equipes docentes se leve em conta a necessidade dos alunos em conhecer todos os professores. A tradição seletiva e propedêutica, especialmente nas escolas do Ensino Médio, não tem de impedir a adaptação das estruturas físicas e organizativas às novas necessidades educativas postas por uma proposta integral.

Por outro lado, se a participação, a democratização, o serviço à comunidade, entre outros, são os valores que se querem promover entre os alunos, será necessário considerar que possibilidades existem de que outros grupos do bairro ou da cidade possam utilizar as instalações da escola. Independentemente dos motivos de racionalização e utilização das instalações escolares, determinados valores de inserção e atuação social só podem ser defendidos se se converterem em modelos de participação e compromisso real. A biblioteca, o auditório, o ginásio, os pátios e as salas de aula, em coerência com estes princípios, devem estar a serviço da comunidade a que pertencem, aceitando como fatores educativos todos os inconvenientes e conflitos que supõem uma proposta deste tipo.


OBS:

*Este texto está no livro: ALFABETIZAÇÃO COMPLETA, de Luciana Martins Maia.

**Primeiro texto da Série: GERENCIANDO O ESPAÇO E O TEMPO NO AMBIENTE ESCOLAR, publicada no Blog Letra Viva, do IDCPro (https://www.idcp.com.br/letraviva)

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