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A QUESTÃO DA ALFABETIZAÇÃO - O MÉTODO


Em recente matéria veiculada no jornal O Globo, do Rio de Janeiro[i], o novo Ministro da educação, Ricardo Vélez, anuncia que o MEC quer focar suas ações em um método mais tradicional de ensinar a ler e escrever, em detrimento de abordagens construtivistas. E essa questão já virou uma grande polêmica nas redes sociais.

Defensores do construtivismo estão arrancando os cabelos enquanto tradicionalistas comemoram, porém, como alfabetizadora, com 30 anos de experiência em sala de aula, preciso fazer algumas considerações a respeito. Muitas delas, já presentes no meu livro: “Alfabetização Completa”, publicado em 2017.

O primeiro esclarecimento é que o construtivismo não é um método de alfabetização, é uma filosofia de ensino e pode ser aplicada a qualquer método, inclusive com o fônico. Segundo a matéria, o construtivismo se baseia na ausência de método, o que não é verdade. Ele se baseia na ausência de um método pronto, engessado, que não dá flexibilidade ao professor para criar suas próprias estratégias, embasadas em diversas metodologias a fim de atingir as necessidades das crianças.

O que ocorre no Brasil atualmente é que, como as faculdades de Pedagogia e os cursos voltados para formar educadores, não priorizam a prática e a base escolar dos professores está muito fraca, muitos deles não estão capacitados para trabalhar criando métodos, ou adaptando os já existentes e, com isso, não conseguem dar conta do recado.

O boon do construtivismo se deu na década de 1990 no Brasil e, até então, apesar de ser uma proposta linda e inovadora, não foi bem compreendida por escolas e professores. O que se viu, ao longo dos mais de vinte anos que se seguiram, foi uma profusão de equívocos e de falta de preparo dos professores para trabalhar de modo construtivista. E a educação foi ladeira abaixo, amargando índices inaceitáveis de incompetência e má formação dos alunos. Temos um abismo, um buraco de mais de vinte anos na educação brasileira. Isso é fato.

O construtivismo baseia-se na premissa de que o conhecimento deve ser construído pelo aluno a partir de suas vivências, porém, o que muitos não entenderam é que alguns conhecimentos podem ser construídos pelos alunos a partir de suas vivências, mas há outros que os alunos precisam que alguém mais competente os informem. Um exemplo disso é o alfabeto. O alfabeto na língua portuguesa tem 26 letras que combinadas vão formar sílabas, palavras, frases e textos. Mas o aluno não vai conseguir adivinhar quais são essas letras. O professor precisa informar quais são as letras, trabalhar a fixação das mesmas com os alunos para, baseados nesse conhecimento, eles construírem a sua escrita e desenvolverem a leitura com compreensão.

Existe também a questão da alfabetização e do letramento. Uma filosofia construtivista prioriza as habilidades de letramento, que são o uso e as funções da escrita e da leitura. Já as filosofias mais tradicionais priorizam as habilidades de alfabetização, que são o traçado das letras, a direção da escrita e a codificação e decodificação dos fonemas. O ideal é que se trabalhe paralelamente desenvolvendo tanto as habilidades de alfabetização quanto as de letramento.

Mas para que isso aconteça é preciso estudo. É necessário que o professor esteja capacitado para tal. E eles não estão. Ainda.

Outra questão que também é importantíssima, é o papel da Educação Infantil no desenvolvimento do processo de alfabetização. Estamos vivendo um despreparo sem precedentes nas questões da Educação Infantil, ambos resultantes de falta de conhecimento e de planejamento inadequado.

Enquanto algumas escolas priorizam o lúdico e a brincadeira como forma de desenvolvimento infantil, outras adiantam conteúdos e trabalham alfabetizando crianças desde quase o Maternal, através do excesso de folhas e atividades escritas e deixando de lado o brincar. Ambos são ações extremas e que não colaboram em nada para uma boa alfabetização.

A função das escolas de Educação Infantil é desenvolver nos alunos as habilidades e competências necessárias para que esses possam se alfabetizar naturalmente, são elas: coordenação motora fina e ampla, lateralidade, percepção visual, percepção auditiva, consciência fonológica, aquisição e domínio do esquema corporal, além da atenção, concentração, coordenação viso-motora... Tudo isso os alunos só vão aprender através de uma prática orientada, lúdica e bem planejada.

Se um aluno chega ao primeiro ano com todas essas habilidades bem desenvolvidas, ele se alfabetiza naturalmente, por qualquer método. Muitas vezes ele já vai chegar até praticamente alfabetizado. Para que isso aconteça, no entanto, professores devem estar bem formados e qualificados para exercerem essa prática com responsabilidade.

Muitos professores, que estão em sala de aula hoje, são dessa geração que foi ensinada através do construtivismo “errado”, ou seja, não aprenderam a interpretar textos e a escrever corretamente, a entender regras gramaticais, a dominar questões inerentes à nossa língua, simplesmente porque não vivenciaram essas ações, simplesmente porque eles teriam “a vida inteira” para aprender. E chegaram às salas de aula sem ter aprendido. Dessa forma, também não estão capacitados para ensinar corretamente.

As críticas aos métodos globais acontecem porque, como eles normalmente partem de textos e/ou experiências sobre as funções da linguagem para se chegar às letras e sons, mas focando na compreensão da leitura, muitos professores assumiram a função de ensinar dessa maneira, sem estarem adequadamente formados para tal, e sem terem recursos suficientes para atesta-los.

Os métodos globais mostram os contextos e o professor é quem define os conteúdos e as estratégias a serem utilizadas. É algo mais abrangente, ideal para o professor experiente e bem qualificado, mas um verdadeiro desastre para os iniciantes e/ou ainda pouco capacitados.

É preciso, antes de se fazer qualquer inovação pedagógica, preparar o professor para que este possa desenvolvê-la com eficácia. Independente do método a ser trabalhado, o professor precisa ser preparado tanto para aplicar as metodologias quanto para decidir qual estratégia utilizar.

Não acredito que a metodologia fônica seja a melhor e mais adequada, apesar de ser a mais usada no mundo. É preciso entender as peculiaridades da língua que esse tipo de metodologia prioriza. A língua portuguesa é uma língua vocálica, porém, não totalmente fônica. Temos palavras que têm o mesmo som, mas que são escritas com letras diferentes. Nesses casos, o trabalho ortográfico e visual é muito importante.

Há também casos de alunos que possuem alguma questão auditiva ou de pronúncia, ou mesmo que aprendem de maneira mais visual ou cinestésica. Estes terão mais dificuldade com um método fônico. Mas já é um começo mais concreto.

O professor pode ter uma metodologia como base, seja ela analítica ou sintética, mas lançar mão de recursos de outras metodologias para auxiliar a sua prática. Porém, para isso, é preciso que domine bem o processo de ensino e aprendizagem e saiba entender a diferença de como o aluno adquire conhecimento e como o mesmo deve ser aplicado.

Por fim, não é o método utilizado que vai definir se o aprendizado ocorrerá adequadamente, mas sim a capacidade do professor de aplica-lo corretamente, contextualizando-o com a realidade dos seus alunos.




Luciana Martins Maia é alfabetizadora desde 1988. Professora, Jornalista, Pedagoga, especialista em Alfabetização, pós-graduada em Avaliação Educacional, Gestão, Supervisão e Orientação Pedagógica, além de Neurociência aplicada a Educação Inclusiva, também possui MBA em Gestão Estratégica da Educação. Atua organizando, planejando, divulgando e executando ações educacionais como: congressos, cursos, palestras, oficinas, seminários, dinâmicas de grupo e grupos de estudo. É Palestrante e também desenvolve programas de educação à distância através de cursos on line. Desde 2007 dirige o IDCPro – Instituto de Desenvolvimento e Capacitação Profissional, uma empresa com sede no Rio de Janeiro, voltada para a qualificação de educadores em suas práticas de sala de aula, que promove ações presenciais e a distância para educadores de todo o Brasil e exterior. É autora do livro: "Alfabetização Completa (2017), a venda no site: idcp.com.br.

[i] https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/alfabetizacao-esta-entre-as-acoes-prioritarias-dos-cem-dias-de-governo-23347807?fbclid=IwAR2rfpf1jp9QjOqDqHTq9GzHeX7jgf0O6xf069fQ8yXWs2KnxtxEpmy00nE

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